terça-feira, 23 de novembro de 2010

DIA 27/11/10



Comemoração do aniversário de Maria Luiza Fontenele no Teatro Bar Chico Anísio as 19h.

Maria Luíza Menezes Fontenele (Quixadá, 1942) é uma política brasileira.Foi prefeita de Fortaleza, de 1986 a 1989.Foi a primeira prefeita de capital estadual eleita pelo Partido dos Trabalhadores e o primeiro político do sexo feminino a ser eleito para esse cargo. Quando assumiu o cargo, a cidade estava em total estado de abandono e com dívidas monumentais, inclusive atraso na folha de pagamentos. Como se tratava da primeira administração eleita pelo voto direto, não existindo ainda a Constituição Federal de 1988, a quase totalidade de recursos da prefeitura dependia de repasses federais ou estaduais. Prova da perseguição sofrida pela prefeita foi a liberação imediata de todos os recursos para projetos da cidade, negados durante os três anos de sua gestão, para Ciro Gomes, sucessor da prefeita e afilhado do governador Tasso Jereissati. Todos os projetos encaminhados por Maria Luíza foram liberados quando Ciro assumiu.

Atuação política

Foi prefeita de um partido de oposição de esquerda que dava os seus primeiros passos (PT), e existem indícios de que sua administração sofreu bloqueio por parte do Governo Federal, então Sarney, e dos governos Gonzaga Mota e Tasso Jereissati. Nunca ficando este fato plenamente esclarecido. Atualmente a ex-prefeita, faz parte do movimento chamado "crítica radical" na qual tece críticas ao capitalismo e ao modo como ocorre a escolha dos políticos. Prega também o boicote às eleições como forma de protesto contra o "establishment" político brasileiro.

Robert Kurz

Nascido em 1943, estudou Filosofia, História e Pedagogia. Vive em Nurenberg como publicista autónomo, autor e jornalista. É co-fundador e redator da revista teórica EXIT! - Kritik und Krise der Warengesellschaft (EXIT! - Critica e Crise da Sociedade da Mercadoria). A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a critica do iluminismo e a relação entre cultura e economia. Publica regularmente ensaios em jornais e revistas na Alemanha, Áustria, Suiça e Brasil. O seu livro O Calapso da Modernização (1991), também editado no Brasil, tal como O Retorno de Potemkine (1994) e Os Últimos Combates (1998), provocou grande discussão e não apenas na Alemanha. Publicou também, entre outros, Schwarzbuch Kapitalismus (O Livro Negro do Capitalismo) em 1999, Marx Lesen (Ler Marx) em 2000, Weltordnungskrieg (A Guerra de Ordenamento Mundial) em 2002, Die Antideutsche Ideologie (A Ideologia Anti-alemã) em 2003, Blutige Vernunft(Razão Sangrenta) em 2004 e Das Weltkapital (O Capital Mundial) em 2005, ainda não editados em português.

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Livros


AGENDA


Dia 25/11/10 a partir das 19h no Mercado dos Pinhões - Palestra com Tariq Ali


Tariq Ali (nasceu em 21 de outubro de 1943) é um escritor e ativista paquistanês. Escreve periodicamente para o jornal britânico The Guardian e para a revista New Left Review.

Ali nasceu e criou-se em Lahore (então, parte da Índia colonial), atual Paquistão, no seio de uma família comunista. Enquanto estudava na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis radicais e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou ciências políticas e filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do diretório central dos estudantes da universidade inglesa.

Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel.

Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.

Obra

Publicou mais de uma dezena de livros sobre história e política internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de pedra.

Pelo Telefone - primeiro samba brasileiro 1917

Primeira composição classificada como samba a alcançar o sucesso, "Pelo Telefone" marca o início do reinado da canção carnavalesca. É a partir de sua popularização que o carnaval ganha música própria e o samba começa a se fixar como gênero musical.

Desde o lançamento, quando apareceram vários pretendentes à sua autoria, e mesmo depois, quando já havia sido reconhecida sua importância histórica, o "Pelo Telefone" seria sempre objeto de controvérsia, tornando-se uma de nossas composições mais polêmicas em todos os tempos.

Quase tudo que a este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como samba. Todas essas questões, algumas irrelevantes, acabaram por se integrar à sua história, conferindo-lhe mesmo um certo charme. "Pelo Telefone" tem uma estrutura ingênua e desordenada: a introdução instrumental é repetida entre algumas de suas partes (um expediente muito usado na época) e cada uma delas tem melodias e refrões diferentes, dando a impressão de que a composição foi sendo feita aos pedaços, com a junção de melodias escolhidas ao acaso ou recolhidas de cantos folclóricos.


Outra versão, relatada por Donga a Ary Vasconcelos e ao jornalista E. Sucupira Filho, é a de que "Pelo Telefone" teria surgido de uma estrofe a ele transmitida por um tal Didi da Gracinda, elemento ligado ao grupo de Hilário Jovino. Já Mauro de Almeida, que parece nunca ter-se preocupado em afirmar sua participação na autoria, declarou, em carta ao jornalista Arlequim, ser apenas o "arreglador" dos versos, o que corresponderia à verdade. "Pelo Telefone" foi lançado em discos Odeon, em dezembro de 1916, simultaneamente pelo cantor Bahiano (foto) e a Banda da Casa Edison.

Primeiro samba?

Em 1917, o samba Pelo Telefone se transformou no marco inicial da história fonográfica daquele gênero musical. Historiadores, porém já registraram, em suas pesquisas, gravações anteriores que podem ser reconhecidas como samba e que comprovadamente foram gravadas antes da composição assinada pela dupla Donga/Mauro de Almeida. O sucesso comercial de Fred Figner e sua Casa Edison, no Rio de Janeiro, provocou o aparecimento de concorrentes no Brasil inteiro e uma variedade enorme de selos fonográficos surgiu. A maioria de vida curta, mas que acabou por contribuir culturalmente com a música popular brasileira e influir na instalação da indústria fonográfica no país.

A gravadora Odeon, por exemplo, que registrou o chamado samba pioneiro, antes dele já havia gravado, na série lançada entre 1912 e 1914, Descascando o pessoal eUrubu malandro, classificados como sambas no próprio catálogo da fábrica. Na série de 1912 a 1915 consta A viola está magoada de Catulo da Paixão Cearense e interpretada por Bahiano e Júlia Martins, além de Moleque vagabundo de Lourival Carvalho, também identificados como samba. Pelo Telefone tem o número de série 121313, mas anteriores a ele são ainda Chora, Chora, Choradô (121057), cantado por Bahiano, Janga (121165), com o Grupo Paulista, e Samba Roxo (121176), comEduardo das Neves. O selo Columbia editou série entre 1908 e 1912, aparecendo nela como “samba” a gravação Michaella, interpretada por Bartlet; Quando a Mulher Não Quer, com Arthur Castro, e No Samba, gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro. A Favorite Record gravava na Europa para a Casa Faulhaber do Rio de Janeiro, entre 1910 e 1913, e em seu catálogo se encontra a gravação Samba - Em Casa de Baiana, com o Conjunto da Casa Faulhaber, identificada na abertura como “samba de partido-alto”. O disco tem o título simples de Samba, sem indicação de intérprete ou autoria. O selo Phoenix também pertencia à família Figner. Gravou de 1914 a 1918 para a Casa Edison de São Paulo.

Os sambas que nele aparecem são anteriores a 1915, ano da gravação 70.711(Flor do Abacate), como provam suas numerações: Samba do Urubu (70.589), com o Grupo do Louro, Samba do Pessoal Descarado (70.623), com o Grupo dos Descarados, Vadeia Caboclinha (70.691), com o Grupo Tomás de Souza, e Samba dos Avacalhados (70.693), com o Grupo do Pacheco, coro e batuque. Da mesma maneira como existem dúvidas quanto à verdadeira autoria de Pelo Telefone, não se pode concluir com inteira certeza qual o primeiro samba realmente gravado.

Outros compositores

A história oral menciona vários autores para o samba Pelo Telefone, mas quando Donga fez seu registro na Biblioteca Nacional omitiu todos declarando ser seu único compositor. As primeiras partituras, ainda na ortografia da época, que grafava Telephone, exibiam apenas o nome de Donga. A grita que se seguiu não teve muitos resultados, mas pelo menos serviu para que Mauro de Almeida (foto) fosse reconhecido como um dos parceiros. O Peru dos Pés Frios, como era conhecido o jornalista carnavalesco, aparece aqui em raríssima foto, mesmo porque faleceu pouco tempo depois da gravação do samba, ficando todas as luzes apenas sobre Donga, que delas sempre soube tirar proveito pessoal.

O sucesso cercou Pelo Telefone de aspectos os mais variados, fugindo da simples conseqüência musical, de cair na preferência popular, no assobio das calçadas e na cantoria das festinhas de subúrbio. Logo um sem-número de pais-da-criança apareceu, cada um puxando a brasa para sua sardinha, todo mundo ignorando a iniciativa de Donga (foto ao lado) em registrar oficialmente sua autoria na Biblioteca Nacional.

Como se sabe, o samba vinha sendo cantado na casa de Tia Ciata de maneira informal, como partido alto com a participação da dona da casa, emérita partideira que com certeza introduziu nele seus improvisos, o mesmo fazendo seu genro Mestre Germano e o "ranchista" Hilário Jovino.

Da cantoria, lá pelo ano de 1916, participavam também Donga, o jornalista Mauro de Almeida - a quem Almirante credita a autoria indiscutível do samba -, João da Mata, o dono do refrão, e o conflituoso Sinhô, que como autor da frase "samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar", evidentemente tentou também se apossar da paternidade da novidade. Ironizando a atuação de Aurelino Leal, o novo chefe de policia do Rio de Janeiro, o samba teve seus versos fixados por Mauro de Almeida, que nem assim foi reconhecido como co-autor no registro da Biblioteca Nacional.


Cantado em público pela primeira vez (segundo Almirante) no Cinema Teatro Velo, à rua Haddock Lobo, na Tijuca, despertou de imediato a cobiça alheia e - com razão ou sem ela - contestações quanto à autoria de Donga (foto ao lado) pipocaram de todos os lados. A principal veio de Tia Ciata, criando uma briga que jamais chegou à reconciliação, com um anúncio publicado no Jornal do Brasil garantindo que no Carnaval de 1917, na avenida Rio Branco, seria cantado o "verdadeiro tango Pelo Telefone dos inspirados carnavalescos João da Mata, o imortal Mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata, o bom Hilário, com arranjo do pianista Sinhô, dedicado ao falecido repórter Mauro", seguindo-se a letra com o nome de Roceiro, denunciando Donga nas entrelinhas:

"Pelo telefone/A minha boa gente / Mandou avisar / Que meu bom arranjo / Era oferecido / Para se cantar - Ai; ai, ai / Leve a mão na consciência, / Meu bem / Ai, ai, ai / Mas porque tanta presença / meu bem? - O que caradura / De dizer nas rodas / Que esse arranjo é teu / E do bom Hilário / E da velha Ciata / Que o Sinhô escreveu - Tomara que tu apanhes / Para não tornar a fazer isso, / Escrever o que é dos outros / Sem olhar o compromisso".

Não faltaram também os aproveitadores, que na esteira do êxito da gravação de Bahiano correram atrás dos lucros que se imaginava para os autores de Pelo Telefone (Mauro de Almeida jamais recebeu um tostão de direitos...). Carlos Lima editou Chefe da Folia no Telefone; J. Meira registrou Ai, Si A Rolinha Sinhô, Sinhô e Maria Carlota da Costa Pereira se apresenta como autora de No Telefone, Rolinha, Baratinha & Cia.

A letra da música

Pelo Telefone (samba, 1917) - Donga e Mauro de Almeida








Almirante

Bb-------------------------- Gm--------------- Cm--- F7
O chefe da folia pelo telefone manda lhe avisar
-----------------Cm-------------- F7-------------- Bb
Que com alegria não se questione para se brincar
--------------------------------Gm ---------------Cm---F7
O chefe da polícia pelo telefone manda lhe avisar
----------------Cm------------- F7-------------- Bb
Que na Carioca tem uma roleta para se brincar
: - Ai, ai, ai,
------------------------------F7
- Deixa as mágoas para trás ó rapaz
- Ai, ai, ai,
-----------------------Bb-------- F7 Bb F7 Bb
- Fica triste se é capaz, e verás :
---------Gm ----------------Cm
: Tomara que tu apanhes
----------F7-------------- Bb
Pra nunca mais fazer isso
----Gm----------------- F7
Tirar o amor dos outros
--------------------Bb
E depois fazer feitiço :
----------------Eb
: Ai se a rolinha (Sinhô, sinhô)
---------------Bb
Se embaraçou (Sinhô, sinhô)
------------------F7
É que a avezinha (Sinhô, sinhô)
----------------Bb
Nunca sambou (Sinhô, sinhô)
--------------------Eb
Porque este samba (Sinhô, sinhô)
-------------Bb
De arrepiar (Sinhô, sinhô)
-------------------F7
Põe perna bamba (Sinhô, sinhô)
------------Bb F7 Bb F7 Bb
E faz chorar

A versão do povo

No dia 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem "antes pelo telefone" aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar. Imediatamente o humor carioca captou a comicidade do episódio, que ao lado de outros foi cantado em versos improvisados nas festas de Tia Ciata e registrado rapidamente por Donga em seu nome, na Biblioteca Nacional. É lógico que os versos "oficiais" eram diferentes daqueles que ridicularizavam o chefe de polícia. Sua versão popular, a que corria na boca das ruas dizia:

"O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta /Para se jogar /Ai, ai, ai /O chefe gosta da roleta,/ Ô maninha / Ai, ai, ai / Ninguém mais fica forreta / É maninha. / Chefe Aureliano, / Sinhô, Sinhô, / É bom menino, / Sinhô, Sinhô, / Prá se jogar,/ Sinhô, Sinhô, / De todo o jeito, /Sinhô, Sinhô, / O bacará / Sinhô, Sinhô, / O pinguelim, / Sinhô, Sinhô, / Tudo é assim".

A letra registrada por Donga, que passou a ser conhecida como original e aparece nas gravações até hoje, é alongada, homenageando o "Peru", o jornalista Mauro de Almeida, co-autor da obra, e o "Morcego", Norberto do Amaral Júnior, conhecido no Clube dos Democráticos. Incorpora também elementos do folclore nordestino:

"O chefe da folia / Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar. Ai, ai, ai, / Deixa as mágoas para trás / Ó rapaz! /Ai, ai, ai, / Fica triste se és capaz / E verás Tomara que tu apanhes / Pra nunca mais fazer isso / Tirar amores dos outros /E depois fazer feitiço...Ai, a rolinha / Sinhô, Sinhô / Se embaraçou / Sinhô, Sinhô/ É que a avezinha / Sinhô, Sinhô / Nunca sambou / Sinhô, Sinhô,/ Porque esse samba, /Sinhô, Sinhô, / É de arrepiar, /Sinhô, Sinhô,/ Põe a perna bamba / Sinhô, Sinhô, / Me faz gozar, / Sinhô, Sinhô.O "Peru" me disse/ Se o "Morcego" visse / Eu fazer tolice,/ Que eu então saísse / Dessa esquisitice / De disse que não disse. Ai, ai, ai, / Aí está o canto ideal / Triunfal / Viva o nosso carnaval. / Sem rival. Se quem tira o amor dos outros / Por Deus fosse castigado / O mundo estava vazio / E o inferno só habitado.Oueres ou não / Sinhô, Sinhô, / Vir pro cordão / Sinhô, Sinhô / Do coração, / Sinhô, Sinhô. / Por este samba".
Fonte: A Canção no Tempo (Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello), História do Samba - Ed. Globo

Entrevista com a economista Maria da Conceição Tavares

No mundo da crença indiscutível

Termômetro:
Brasileiros gostam de cultivar misticismos,
paragens em que também mora o perigo de se acreditar
na existência de salvadores da pátria.
Por Alberto Carlos Almeida *

O Brasil se tornou a grande estrela dos investidores estrangeiros. Eles olham para todos os países, comparam e chegam à conclusão de que o mais rentável é o Brasil. Isso se refere não apenas a investimentos no curto prazo, mas também, e principalmente, a investimentos que vão remunerar os investidores em cinco ou dez anos. Bom para todos nós. O dinheiro continuará entrando e isso é um importante motor do desenvolvimento econômico. O Brasil se tornou atraente para o capital internacional e o mérito é dos últimos governos, de Fernando Henrique Cardoso e de Lula.

Para continuarmos avançando, precisamos atacar problemas sérios que ainda temos, alguns dos quais com sinais de melhora nos últimos anos. Destacaria dois: o nível educacional da população e a carga tributária elevada, injusta e geradora de pobreza e desigualdade. Os impostos têm sido um tema constante desta coluna, a educação também. No que se refere à educação, tenho defendido que o que realmente importa não é adicionar novas disciplinas ao currículo, mas ensinar bem ensinado o que todos precisam aprender: português, matemática e ciências. Se for possível adicionar o inglês, melhor.

Um dos efeitos esperados da melhoria do nível educacional da população é a diminuição da crença em mágicas. Trata-se de algo muito comum no Brasil. A seleção é eliminada da Copa do Mundo e a causa disso é algo mágico, tal como a expulsão de um jogador ou o fato de o técnico ser inexperiente. O oposto disso é admitir que, numa Copa, há um vencedor e 31 perdedores. Assim, ser eliminado é a regra e ser campeão é a exceção. Os times perdem, os goleiros falham, os jogadores são expulsos e há viradas no placar. Assim é o mundo sem mágica.

Recentemente, vimos a mesma crença aplicada à política. Quando Dilma Rousseff encostou em José Serra nas pesquisas, tornou-se preponderante no noticiário a ideia de que, se Aécio se tornasse o vice de Serra, haveria uma mudança dessa tendência. Mais uma vez, trata-se de uma visão mágica. Escolha-se um determinado vice e tudo muda. Os exemplos podem ser multiplicados. Quando aconteceu o atentado de 11 de setembro, a interpretação corrente era de que o mundo mudaria. O mundo pós-atentado em nada se pareceria com o mundo pré-atentado. Isso não ocorreu. A grande mudança foi o maior rigor nos embarques de voo para os EUA e dentro do país. O atentado não resultou em consequências mágicas.

Um dos terrenos mais férteis para as crenças mágicas é o mundo da religião. O recente fenômeno do crescimento das religiões evangélicas no Brasil tem chamado atenção para esse fato. Muitos de nós nos recordamos dos grandes eventos em estádios de futebol liderados pelo pastor Edir Macedo, nos quais os fiéis, crendo no milagre, doavam seus óculos para a igreja. A crença milagrosa era de que, ao doar os óculos, a miopia, o astigmatismo, ou qualquer outro problema de visão ficaria curado. A crença em tais fenômenos vem acompanhada, na maioria das vezes, da crença em coisas mais sérias, que na maioria das vezes fundamenta toda a doutrina religiosa.

Foi pensando nisso que, na última semana de maio de 2010, o Instituto Análise fez várias perguntas em uma pesquisa nacional, para saber em quê os brasileiros acreditam.

Nada menos do que 93% dos adultos acreditam que Jesus Cristo ressuscitou e ascendeu aos céus. Apenas 4% disseram não acreditar que isso tenha ocorrido e outros 3% não quiseram responder à pergunta. Além disso, 76% acreditam que depois de morrer desfrutarão da vida eterna, 14% disseram que não acreditam na vida eterna e 10% não responderam.

Foi perguntado também para cada entrevistado qual seria seu destino após a morte: 66% afirmaram que irão para o céu, 6% disseram que irão para o purgatório, 3% consideram que irão para o inferno e humildes 25% afirmaram que não sabem para onde irão. É claro que entre esses 25% estão também aqueles que acham que não há vida após a morte. Continuando nesse tema, descobrimos que 50% dos brasileiros acreditam que o purgatório existe e 40% disseram que não existe. Os demais 10% não responderam.

A crença em outros dogmas da religião cristã também foi investigada, como a virgindade de Maria e a transubstanciação da hóstia e do vinho em corpo e sangue de Cristo. Nada menos do que 82% acreditam que Maria concebeu Jesus Cristo sendo virgem, 12% não acreditam nisso e 6% não responderam. Isto é, 12% acham que Maria, para conceber Jesus, precisou fazer sexo com José. Aliás, quanto a isso, há uma contradição factual na Bíblia. Afirma-se que Maria era virgem e que Jesus era descendente da casa de Davi. As duas coisas são incompatíveis, dado que o descendente de Davi era José. Assim, para ser descendente da casa de Davi, Jesus precisaria ser filho biológico de José.

Quanto à transubstanciação, 93% acreditam que no momento da comunhão a hóstia se transforma no corpo de Cristo e o vinho se transforma em seu sangue. Somente 4% não creem que isso aconteça e 3% não responderam.

Voltando ao tema da vida após a morte, 63% acreditam que vão encontrar seus familiares que já faleceram, 26% não acreditam nessa possibilidade, 11% não responderam.

Um tema típico da religião católica, o poder dos santos, também foi investigado: 65% acreditam que, se fizerem um pedido para um santo ou uma santa, ele ou ela vai interceder junto a Deus para que o pedido seja atendido, 30% não acreditam que isso ocorra e 5% não responderam.

Igualmente interessante é que 37% dos brasileiros consideram que já lhe ocorreu algum milagre ou com alguém de sua família, 58% afirmam que nunca aconteceu tal coisa e 5% não responderam. Adicionalmente, foi perguntado a esses 37% que já foram beneficiados por milagre o que acontecera. Para 48%, houve a cura de um doença grave, 7% afirmaram que escaparam de um acidente de automóvel e 4% garantem que algum parente morreu e depois ressuscitou. Os demais milagres se distribuíram em proporções iguais ou menores do que 3%: ficar livre do vício de drogas, conseguir um emprego (é notável que uma parcela, ainda que pequena, da população considere que obter um emprego seja um milagre), cura da cegueira, comprar casa (tão notável quanto conseguir um emprego), ouvir a voz de Deus, receber um dinheiro que não esperava, criança sobreviver a um afogamento e assim por diante.

Cabe ao leitor julgar quão disseminado é no Brasil o pensamento mágico. Creio que é muito. Cabe também ao leitor avaliar se isso é bom ou não para o desenvolvimento de nossa sociedade. Acho que não é. Acreditar na ressurreição de Cristo e na vida após a morte é, salvo melhor juízo, o próprio fundamento do cristianismo. Ou seja, tudo bem. O mais interessante é a crença em outras mágicas, como a existência do purgatório, a transubstanciação, a intercessão dos santos junto a Deus e a virgindade de Maria. É mágica demais. Quem acredita nisso tudo está propenso também a acreditar, por exemplo, em salvadores da pátria.

Não coincidentemente, portanto, é relevante ressaltar que todas essas crenças são mais fracas na região Sul. Aliás, a pesquisa também mostra que, quanto mais uma pessoa frequenta a igreja, mais acredita em todos esses dogmas. A frequência à igreja, entre a população da região Sul, é menor do que em todas as outras regiões. O Sul é mais europeu e germânico, teve mais influência do protestantismo da Europa continental. O protestantismo, ao contribuir para aumentar o nível educacional de toda a população, agiu inadvertidamente para enfraquecer a crença nas mágicas.

O Brasil, e não somente uma de suas regiões, precisa lidar com seu baixo nível educacional e seu alto nível de crenças em coisas que não encontram fundamentação empírica.
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*Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo". alberto.almeida@institutoanálise.com www.twitter.com/albertocalmeida
Fonte: Valor Econômico online, 09/07/2010